desaparecidos

Adolescentes lideram lista de pessoas localizadas em operação policial

Camila Gonçalves

Foto: Gabriel Haesbaert (Diário)
Segundo a delegada Luiza Sousa, ocorrências e adolescentes não envolviam suspeita de violência

A Polícia Civil divulgou um número impressionante nesta segunda-feira. Em apenas um dia de operação, 64 pessoas que tinham status de desaparecidos em Santa Maria e em outras quatro cidades da região - Itaara, Restinga Sêca, São Sepé e Tupanciretã - foram localizadas durante a Operação Regresso. O número corresponde a 32% de todos os desaparecidos na região, de cidades de abrangência da 3ª Delegacia Regional. Por trás da estatística, 51 eram adolescentes e 13, adultos.

Outro dado que chama a atenção é a motivação do sumiço desses adolescentes: não concordar com as regras familiares. Aparentemente, explica a polícia, os jovens deixam os lares por não concordarem em cumprir algum tipo de regra familiar. Mas existem situações que exigem um olhar minucioso. 

Segundo o delegado regional de Santa Maria, Sandro Meinerz, alguns casos implicam em outros desdobramentos.
- Agora, começa uma nova etapa. A de verificar as histórias dos adolescentes que foram localizados para ver as circunstâncias do desaparecimento, se houve maus-tratos, negligência, se estavam envolvidos com drogas, etc - explica o delegado regional. 

A delegada Luíza Santos Sousa, titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), lembra que o perfil predominante dos adolescentes encontrados na operação em Santa Maria não envolve violência. Não há suspeita de sequestro, homicídio ou crimes mais graves. A maioria dos casos acaba sendo motivada por conflitos familiares. 

- São casos recorrentes de jovens que saem de casa por contrariedade familiar. Eles vão para a casa de amigos, familiares ou parentes. É mais uma questão de adolescentes rebeldes. Por esse motivo, é importante que os familiares façam o registro da localização, pois, para atender a essas ocorrências, dispendemos recursos humanos e tempo, que podem ser direcionados para investigações mais graves - alerta a delegada. 

MOTIVOS PARA SUMIÇO
Principais motivações de desaparecimento entre adolescentes, segundo a Polícia Civil:  

  • Não concordam com regras impostas pela família  
  • São usuários de drogas e querem fugir do controle dos pais
  • Se desentendem com a família
  • Buscam se esconder por algum motivo

Onde são encontrados na maioria das vezes:

  • Na casa de amigos e parentes

O QUE DIZ A ESPECIALISTA
Porém, nem todos os adolescentes encontrados retornaram às famílias. Para a professora da Universidade Franciscana (UFN) e mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS) Paula Argemi Cassel, o cenário dos casos de desaparecimento em Santa Maria reflete a falta de habilidade das famílias para lidar com a imposição de regras:

- Acionar a polícia e a Justiça é o último recurso que a família busca. É quando ela (a família) não sabe mais como resolver os problemas e precisa vir um terceiro, uma instância da lei, para interromper algo que ela não consegue resolver. Os pais se deparam com dificuldades de lidar e manejar regras, limites e situações. E as famílias não fazem isso propositalmente, elas fazem porque essa é a forma que elas sabem, é o modelo que elas têm. Não é por serem pais ruins. 

A especialista considera ainda que a atenção ao problema da imposição de limites deveria começar com uma rede estruturada de assistência social e psicológica em fases iniciais da vida da criança. 

- Ninguém tem problemas com limites ou regras em um evento. Eles aparecem desde muito cedo na nossa vida, com 3, 4 anos de idade. O desaparecimento representa o auge do rompimento com a família - afirma a psicóloga.

A OPERAÇÃO
O salto no número de casos solucionados foi possível graças à Operação Regresso, da Polícia Civil. Deflagrada em todo o Estado, a ação tem como referência a Lei 12.393, de 2011, que institui a Semana de Mobilização Nacional para Busca e Defesa da Criança Desaparecida, que ocorre de 25 a 31 de março. No Estado, o número de pessoas localizadas chegou a 688 pessoas de 706 ocorrências em um único dia de operação.  

Em Santiago, que não pertence à região da 3ª Delegacia Regional, a operação foi batizada de Volta ao Lar e localizou sete adolescentes com idades entre 13 e 17 anos em dois dias. Lá, a Polícia Civil e o Conselho Tutelar atuaram em conjunto.

RESULTADOS

Operação Regresso, da 3ª DPRI - Sede em Santa Maria, 13 municípios de abrangência

  • Adolescentes localizados - 51 (todos de Santa Maria)
  • Adultos localizados - 13 (6 em Santa Maria; 1 em Tupanciretã; 2 em São Sepé; 2 em Restinga Sêca e 2 em Itaara)

Operação Volta ao Lar, da 21ª DPRI - Sede em Santiago, 12 municípios de abrangência

  • Adolescentes localizados - 7 (todos de Santiago)

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No Coração do Rio Grande e região, a ação empregou 20 agentes da 3ª Delegacia de Polícia Regional do Interior (DPRI), com sede em Santa Maria e abrangência de 13 municípios. A coordenação do trabalho ficou por conta do delegado regional Sandro Meinerz e da delegada da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), Luiza Sousa. Na Região Central, policiais de Restinga Sêca, São Sepé, São Pedro do Sul, Itaara, Formigueiro, Agudo, Tupanciretã e Júlio de Castilhos participaram.

De acordo com Meinerz, eram 200 as ocorrências do tipo na região. As 64 pessoas encontradas foram o resultado de uma seleção de cerca de 120 ocorrências de desaparecimento elencadas para a operação. Ficaram pendentes em torno de 130 casos. E o número pode diminuir.

- É possível que as pessoas que foram procuradas na segunda-feira e que não constam na lista de localizadas vão até as delegacias responsáveis pelos casos para registrar a localização. Por isso, acreditamos que esse número deve diminuir ainda mais - acredita Meinerz.

É claro que nem todas foram solucionadas em um único dia. O trabalho começou antes da operação entrar em vigor, há uma semana. Nas delegacias, os agentes fizeram uma varredura nas ocorrências. Na segunda-feira, durante todo o dia, foram cumpridas diligências nos endereços dos desaparecidos e em outros locais onde potencialmente poderiam ser encontrados.

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AINDA SEM DESFECHO
Histórias sem final feliz ainda constam nos arquivos da polícia. É o exemplo de Royce Campos, 42 anos (na foto ao lado), desaparecido em 1º de novembro de 2017

De acordo com Maria de Lourdes Campos, mãe de Royce, o filho saiu de casa, no Bairro Tancredo Neves, para encontrar um amigo e não retornou para casa. O amigo acompanhou Royce até uma parada de ônibus, na Avenida Presidente Vargas, último lugar onde foi visto.   

O caso segue sob investigação da Delegacia de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DPPH). O delegado Gabriel Zanella, titular da delegacia, diz que a equipe vem trabalhando exaustivamente desde a comunicação do desaparecimento pela família. 

6 ANOS SEM SOLUÇÃO
Em janeiro deste ano, o desaparecimento da mototaxista Elizete Vieira da Silveira, 31 anos, completou seis anos. A mototaxista desapareceu no dia 6 de janeiro de 2012, após se deslocar de Santa Maria até Dilermando de Aguiar para fazer uma corrida. O irmão teria sido a última pessoa com quem Elizete conversou. A investigação está com a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) e também segue sem resposta. 

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A diarista Ana Lúcia Drusião, 35 anos, também está desaparecida desde 31 de maio de 2016. O carro de Ana Lúcia, um Celta prata, foi encontrado na tarde de terça-feira em uma estrada a 300 metros de distância da casa dela, que fica na localidade de Três Coqueiros, distante cerca de 30 quilômetros da área central de Santa Maria.  

O marido de Ana Lúcia, Antonio Adelar Rigão Stello, foi indiciado como suspeito e responde judicialmente por homicídio qualificado.

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ONDE BUSCAR AJUDA 

Onde informar sobre desaparecidos:

  • Delegacia de Polícia de Pronto-Atendimento (DPPA) - 197 (24 horas)
  • Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) - (55) 3222-9646
  • Delegacia de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DPHPP) - (55) 3222-9478

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